Curadoria






"Atenção mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, profetas, esfomeados e povo da rua... Tirem dos Lixos deste imenso País, restos de luxo e façam a sua fantasia e venham participar deste grandioso Bal Masqué (baile de máscaras)!"



Essa foi a convocação que o carnavalesco Joãosinho Trinta fez aos foliões no histórico desfile da G.R.E.S Beija-flor de Nilópolis, em 1989, através de um cartaz instalado no censurado abre-alas, que trazia uma reprodução da estátua do Cristo Redentor com trajes de mendigo. Proibido de entrar na passarela no carnaval daquele ano a pedido da arquidiocese do Rio de Janeiro, o carro Cristo Mendigo apresentou a silhueta do Cristo invólucro por um saco de lixo, se tornando a alegoria - literal e simbólica - com a qual Joãosinho convidava sujeitos marginalizados ao grande baile de máscaras.

Ao decidir mostrar na avenida a famosa escultura estrategicamente mascarada por um plástico preto (e envolta por urubus), o carnavalesco amplia os significados da própria imagem insigne do Cristo, ao destacar o poder revelador daquilo que, em princípio, se pretende ocultar. Um gesto ao mesmo tempo artístico, político e poético. O que se mascara, antes de tudo, revela algo. A imagem generosa do Cristo Redentor se torna então o estandarte mórbido de um país que insiste em despotencializar a vitalidade de corpos subalternizados, muitas vezes condenando-os à morte. O enredo “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, criado há mais de três décadas, permanece, funestamente, pertinente aos dias de hoje, especialmente neste ano de 2021, marcado pelo cancelamento de uma série de eventos oficiais de carnaval por conta dos trágicos números de mortes causadas pela pandemia do novo coronavírus.

O Brasil ocupa, atualmente, o segundo lugar em número de mortos pela Covid-191 no mundo. Esse calamitoso posto não foi alcançado por acaso - é resultado do avanço da necropolítica brasileira, fundante das estruturas sociais do país e potencializada pelo nefasto governo do presidente Jair Messias Bolsonaro. Em relação à pandemia, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) alerta sobre a necessidade de especial proteção a grupos em situação de vulnerabilidade ou em risco como as pessoas em situação de rua, com sofrimento ou transtorno mental, com deficiência, vivendo com HIV/aids, LGBTI+, população indígena, negra e ribeirinha e trabalhadores do mercado informal, como catadores de lixo, artesãos, camelôs e prostitutas.

Segundo estudos2, pessoas negras são as que mais morrem pela Covid-19 no Brasil, sendo também o grupo de maior incidência de contágio pela doença. Em 2020, mesmo em meio à crise sanitária pandêmica, o Brasil foi o país que mais teve casos de assassinato de pessoas trans em todo o mundo3, superando o seu próprio recorde de anos anteriores. O total de brasileiros na miséria hoje equivale a cerca de 39,9 milhões de pessoas, de acordo com dados do Ministério da Cidadania. Não é difícil imaginar qual é o perfil de pessoas que compõem esse grupo dos mais vulneráveis sócio-economicamente no país.

O Baile de Máscaras se recusa a dançar a marcha fúnebre da orquestra colonial.




II)


Neste excepcional ano de carnaval pandêmico, um tópico se destaca pela ambivalência de sua abordagem: a máscara. Elemento tradicional nas folias de Momo, as máscaras, enquanto item de proteção individual e coletiva, têm protagonizado nos últimos meses uma campanha de conscientização global, tendo tido seu uso apontado como um dos principais agentes de controle da propagação da pandemia do novo coronavírus.

Para além do contexto atual, as máscaras trazem um repertório de representações tão diverso quanto ancestral. Estudos arqueológicos apontam que o uso das primeiras máscaras teria ocorrido por volta de 11.000 anos atrás, a partir da confecção de artefatos antropomórficos que teriam sido utilizados em diversas celebrações, cultos e rituais. Há registros de pinturas rupestres nas quais aparecem imagens de caçadores mascarados com cabeças de animais. Acredita-se que as sociedades desta época usavam a máscara e a dança num ritual místico para influir no sucesso da sua caça. A máscara seria, portanto, um dispositivo catalisador e transmissor dessas forças misteriosas utilizado com um propósito de sobrevivência, em um momento da humanidade onde o sentido utilitário e o mágico estavam fundidos de modo indissociável. Ainda hoje as máscaras carregam a força agregadorade contingências do mundo material e o sobrenatural.

Das pinturas neolíticas até as manifestações políticas das últimas décadas, dos rituais xamânicos aos bate-bolas do carnaval suburbano carioca, das máscaras mortuárias ao skincare, da diversidade material de seus elementos composição aos filtros do Instagram, das elaborações sobre seus aspectos sócio-culturais até leituras psicanalíticas; as máscaras assumem diferentes funções em vários campos da vida humana, atravessando milênios, sempre atualizando e ampliando seus sentidos, abarcando expressões artísticas, religiosas e práticas.

Há, contudo, alguns aspectos comuns à grande parte das elaborações sobre esses artefatos: o exercício de alteridade, a integração de indivíduos a uma instância coletiva e fabulações sobre as transitoriedades da vida. Ao se projetar em uma identidade-outra, o ser mascarado instaura para si um entre-lugar, um estado de comunicabilidade entre o mundo material e os mistérios, de conexão cosmogônica, de fluxo, de movimento. Ao vestirmos uma máscara, estamos todos atravessando um caminho (ou uma encruzilhada), que não vislumbra exatamente um fim, mas se configura, antes de tudo, como um desejo de trânsito.

As máscaras são, portanto, um artefato de ampliação de imaginários.



III)


As artistas convidadas para a exposição coletiva virtual Baile de Máscaras foram instigadas a elaborarem, através de obras comissionadas especialmente para o projeto, propostas político-poéticas sobre o tema da máscara, no sentido de amplificar a ambiguidade sugerida pelo título da mostra. Essas artistas têm em comum - além do fato de serem jovens de origem popular/periférica e emergentes no circuito das artes visuais do Rio de Janeiro - pesquisas que dialogam com tópicos sobre alteridade, identidades e transitoriedade.

Mayara Veloso e Thais Iroko, representantes do coletivo Trovoa (RJ), produziram um trabalho que permeia aspectos comuns às vivências das duas artistas. Mayara, moradora do Morro do Salgueiro, e Thais, cria do Chapadão, elaboraram um artefato performático - e protetivo - que está intrinsecamente inserido em uma iconografia periférica: os capacetes de moto. Os motoboys, onipresentes na paisagem das favelas cariocas, se tornaram a maior expressão de mobilidade nos espaços populares da cidade. Mover-se mascarado, em segurança, contudo, é um privilégio para poucos (e brancos). Mayara e Thais performam seus corpos femininos insubmissos pelas vielas do Morro do Salgueiro, pelos mesmos espaços onde desfilam os grupos de foliões bate-bolas e os palhaços da tradicional Folia de Reis (manifestações ainda muito ligadas à expressão do masculino, assim como os próprios motoboys). As “máscaras de corpo” foram elaboradas pelas artistas e produzidas em um processo coletivo. Os capacetes foram doados por familiares e os adereços ofertados por uma vizinha artesã da G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro. Ao vestirem os artefatos, Mayara e Thaís também incorporam as tradições que guardam o legado comunitário e solidário de corpos pretos favelados, especialmente no carnaval.

Yhuri Cruz retoma à sua pesquisa “Pretofagia”, através de uma nova máscara “Pretusi”, para realizar o curta-metragem “O túmulo da terra”. O poema homônimo do artista, exposto junto ao novo trabalho, é a pedra fundamental que virou filme. Yhuri se diz um escritor que cria imagens. Quem acompanha o projeto “Pretofagia” percebe o esforço poético de Yhuri por esgarçar os limites entre a palavra escrita e a visualidade. Depois de “comer a vida”, o artista reflete sobre a morte se desvencilhando do sentido finito da palavra. Ou melhor, Yhuri desenvolve um túmulo a partir de uma operação dialógica com a potência vital. A terra do túmulo, também pó da vida. A pedra, este estado ancestral de vida-morte. O eu, expandido na perspectiva do outro. E vice-versa. A obra “O túmulo da terra” abarca a máscara como elo entre os eus. Um elo é sempre um desejo de conexão. Conectar-se é expandir um lugar, dilatar um estado, colocar-se em movimento. Movimentar-se é, por fim, viver. Em meio à morbidade dos tempos pandêmicos, Yhuri propõe uma máscara vivificante.

Mulambö é um jovem artista nascido e criado entre a Região dos Lagos e São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. No cerne da pesquisa de Mulambö está o interesse em destacar a potência e a multiplicidade das identidades cariocas suburbanas. Para o projeto Baile de Máscaras, o artista desdobrou sua série “Fundamento”, já apresentada através de pinturas e filtros digitais. O que se vê nessa exposição é, na verdade, o recorte de um trabalho que continua acontecendo em outros espaços. “O Brasil tem fundamento”, dizem em vozes sobrepostas os que carregam o mapa do Brasil estampado no rosto, através de um filtro compartilhado no Instagram. A obra aborda o solo - como território - prismado pelo conceito de identidade. Em contraponto à propagação de uma nacionalidade bélica e excludente dos dias atuais, aqui vemos um Brasil múltiplo. Fundamento contra fundamentalismos. Mulambö cria então uma máscara-Brasil, uma bandeira coletiva, que não esconde, ao contrário, destaca os que acreditam que fundamental mesmo é estar junto. Um desejo de multidão, em meio ao isolamento de uma quarentena.

O trabalho de Agrippina R. Manhatan produzido para a mostra é a radicalidade das máscaras como exercício de alteridade e transitoriedade. Para refletir no ponto mais sensível e abstrato do objeto-máscara, Agrippina dilui a própria materialidade alegórica do artefato com a obra “Transição”. Um outdoor instalado em uma via expressa, entre São Gonçalo e Niterói, um caminho habitual e afetivo da artista, convoca os passantes para uma atenção fugaz: “eu é uma palavra / que nesse caminho / já é outra palavra / que não é mais eu”. O poema instalado em letras gigantes em lugar de fluxo contínuo reforça a ideia do eu como uma elaboração em constante movimento. “Agora é sua vez de ser outro” sugere um trabalho anterior de Agrippina, apresentado em espelhos. Há nesse convite - dialógico ao novo trabalho “Transição” - mais do que um apelo à empatia. Agrippina provoca ruptura com a inércia do eu, desestabilizando as estruturas de distinção, deflagrando as máscaras que mantêm as normatividades de gênero, raça e sexualidade.

Irmãs Brasil são uma dupla de artistas performáticas, nascidas na pequena cidade paulista de Amparo, que vieram para o Rio vislumbrando mais liberdade para seus corpos dissidentes. Na “Cidade Maravilhosa”, famosa por sua suposta permissividade e acolhimento à diversidade, encontraram novas expressões de “desamparo” e violência aos que performam o embate aos códigos cis-héteronormativos. Com o projeto de título polissêmico “Ah lá, travesti”,as irmãs gêmeas propõem um roteiro turístico do carnaval carioca onde a presença das artistas em pontos emblemáticos da folia destaca justamente a falta das comemorações neste ano pandêmico. Ao evocar o fantasma do carnaval, as Irmãs Brasil refletem sobre a máscara em consonância a uma das raízes etimológicas do termo (no latim medieval MASCA, “espectro, pesadelo, máscara”), convocando simbolicamente a ala das travestis, transsexuais e bichas quepassaram, sangraram e sambaram antes de nós, protagonizando o maior espetáculo da Terra.

A exposição Baile de Máscaras retoma a convocação do carnavalesco Joãosinho Trinta,  celebrando a folia insurgente dos sujeitos periféricos e dissidentes que, a despeito da destinação mórbida da colonialidade a seus corpos, estão em constante movimento, na ginga, fabulando suas ancestralidades e inventando futuros, concebendo sempre novas formas de existir e expressar suas vitalidades.






https://covid.saude.gov.br/

https://www.abrasco.org.br/site/noticias/desigualdade-racial-por-que-negros-morrem-mais-que-brancos-na-pandemia/49455/

3 Os dados são do dossiê “Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2020” da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA).





Alexandre Silva (curador)


Nascido no Rio de Janeiro há 32 anos, criado em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Mestrando no Programa de Pós-graduação Literatura, Cultura e Contemporaneidade, na PUC-Rio. Graduado em Marketing e formado pela EAV - Escola de Artes Visuais do Parque Lage, tenho uma trajetória profissional que vem sendo construída na atuação em projetos culturais, na perspectiva de descentralizar e democratizar o acesso, produção e a difusão das práticas artísticas. Minha pesquisa no âmbito acadêmico tem sido a influência dos símbolos pentecostais na arte contemporânea brasileira.

Em 2019, fui responsável pelo projeto curatorial do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. De 2009 a 2018 atuei em projetos culturais do Observatório de Favelas, na Maré, colaborando na comunicação e produção do Programa Imagens do Povo, coordenação da Galeria 535, localizada na sede da instituição, na Nova Holanda. De 2016 a 2018 fui gestor do Galpão Bela Maré, onde desenvolvi, com a colaboração de uma equipe multidisciplinar, algumas metodologias no âmbito da curadoria, produção, gestão e arte-educação. Em 2019 participei da comissão de seleção de projetos do Edital DescentrArte, realizado pela FUNARTE (Fundação Nacional de Artes) em âmbito nacional. Em 2020, fui convidado pelo Instituto Goethe para integrar a comissão latino-americana de curadores, pesquisadores e educadores, discutindo “O futuro dos museus e bienais”, no contexto da Bienal de Berlim, na Alemanha.